MISCELÂNEA DE IDEIAS –
XXXI
1.01.2026
“Gorbatchov
cavou a sepultura do comunismo soviético precisamente porque acreditava nele”,
William Taubman, biógrafo de Gorbatchov, Revista “E” do Expresso, 7.03.2025.
“Fui
comunista até me dar conta de que o partido soviético não era comunista”,
Marguerite Duras.
Há,
indiscutivelmente, algumas personalidades políticas no século XX que deixaram
uma marca indelével na História contemporânea. Como Churchill, Hitler,
Estaline, Mao, Mussolini, Gorbatchov e Fidel Castro. Estas figurarão,
seguramente, entre as mais importantes. Cada uma por si, arcaram com uma acção,
participação e responsabilidade enorme no desfecho da História dos seus Países
e, alguns, mesmo da humanidade.
Gorbatchov
sobressai e tem uma importância capital e única por ter sido ele que tentou
reformar o comunismo a partir do lugar mais importante na hierarquia da antiga
U.R.R.S.S., o de Secretário-Geral do Partido Comunista Soviético. Falhou.
O
comunismo ganhou uma importância colossal porque se transformou quase numa
religião; enquanto que o Cristianismo prometia o Céu e o Paraíso depois da
morte, o comunismo fazia-o em ralação à vida e ainda em vida, e a sua mensagem
era de tal forma arrebatadora e forte que em Países pobres e atrasados como a
Rússia – a Rússia era um Estado quase medieval em 1917 – se propagou
violentamente. Só isso explica o número colossal de vítimas que deixou para
trás. Alguns historiadores falam na sua obra: “Le Livre Noir du Comunisme”,
como Stéphane Courtois, Nicolas Werth, Jean-Louis Panné, Andrzej Paezkowski,
Karel Bartosek e Jean-Louis Margolin, em cerca de cem milhões de vítimas desde
o seu advento ao poder, como ocorreu na Rússia em 1917, com Lenine.
E
Gorbatchov é incontestavelmente, um dos políticos mais importantes do seu tempo por
ter sido o coveiro do comunismo como, e muito bem, diz o seu biógrafo
principal, William Taubman. Gorbatchov tentou reformar um regime que estava
exausto e perto de colapsar, estava nesse estado devido à sua absurda e total
inoperância económica, à corrupção, à guerra fria e ao custo brutal que Ronald
Reagen imprimiu nessa “guerra” com o anúncio e começo da implantação do SDI
(Strategic Defense Initiative), equiparável a uma verdadeira “Star Wars”, ou
seja, armas capazes de interceptar, a partir do espaço, quaisquer mísseis
balísticos lançados contra o território dos Estados Unidos. A U.R.S.S., devido
essencialmente à sua fragilidade económica, não teria condições de igualar
belicamente os EUA, devido ao seu custo brutal e, porventura, ao seu enorme avanço
tecnológico.
O comunismo é hoje um resquício do que foi no seu apogeu e os Países que ainda o exercitam funcionam manifestamente como um anti-modelo – nenhum ocidental no seu juízo perfeito quereria viver nesses Países – sendo os dois principais: a Coreia do Norte, o último País Estalinista à face da terra, uma ditadura bélica, execrável e repelente, e Cuba, um País cuja revolução implantou igualmente uma ditadura feroz e que faz justamente agora, 66 anos e que, não obstante a sua longevidade, sofre das maiores carências a um nível básico, até a electricidade falha agora regularmente. Dir-me-ão que me esqueço da China, mas não, a China é um Estado que pratica um claro capitalismo de Estado, longe da ideia pura e inicial e onde há um número incontável de milionários. Onde está a igualdade, é isso comunismo? Não, claro que não, do mesmo só resta o nome e a ditadura!
Gorbatchov,
pelo seu papel no desmantelamento do comunismo, figurará sempre como um dos
maiores vultos da História do século XX e da humanidade, e o principal obreiro
– mesmo que involuntariamente, como aponta o seu biógrafo – a por fim à maior
ilusão da História da Humanidade, a um fracasso que envolveu milhões de
simpatizantes e crentes que lutaram e deram a vida pela causa, e que no
essencial se sentem hoje completamente órfãos, principalmente a partir de 1989,
aquando do colapso intestino da U.R.S.S, sem honra nem glória.
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