REFLEXÕES
SOBRE A ACTUALIDADE – CCCLXXVII
26.07.2025.
O PACTO
GERMANO-SOVIÉTICO, RIBBENTROP-MOLOTOV, PACTO DE TODAS AS IGNOMÍNIAS.
“Os documentos mentem tanto quanto os homens“, Yuri Tynianov, escritor
soviético, [1894 —
1943].
Fará
dentro em breve 86 anos que este pacto germano-soviético foi assinado, razão
mais do que suficiente para se evocar a efeméride, se reflectir sobre o mesmo,
e retirar mais algumas ilações ou fortíssimas condenações.
Em 23
de Agosto de 1939, foi assinado este acordo entre duas potencias antagonistas,
inimigas mortais ideologicamente. Um acordo desta natureza teve inúmeras e
gravíssimas consequências, mormente abrir o caminho à Alemanha para atacar de
imediato a Polónia, e dividi-la – o termo correcto é esquartejá-la – mais tarde
com a U.R.S.S. Estava escancarado o caminho para a Segunda Guerra Mundial.
É
absolutamente extraordinário que duas ideologias nos antípodas uma da outra e
inimigas mortais, se tivessem aliado sob este Tratado verdadeiramente espúrio e
contra-natura. Esta aliança fomentou o maior cisma do comunismo (que perdurou
nessa qualidade até à invasão da Checoslováquia pela U.R.S.S., em 1968) e isto
apesar de grande parte da intelectualidade da época defender a U.R.S.S. e este
passo de risco em aliar-se ao nazismo.
Os
ganhos para cada uma das partes foram, no essencial, os seguintes: a Alemanha ficava com
metade da Polónia, evitava uma segunda frente militar a Leste – que
estupidamente reabriu quando invadiu – Operação Barbarossa – a U.R.S.S., mais
tarde – e recebia as matérias primas essenciais para alimentar a sua máquina de
guerra, mormente petróleo, minérios essenciais e borracha. A U.R.S.S. ficava
com a liberdade para atacar a Finlândia, a Estónia, Letónia e Lituânia, a
Bielorrússia e metade da Polónia, como, de facto, veio a fazer.
Do mais importante a retirar deste acordo, é a
violação gritante, flagrante e descarada da soberania de países independentes e
pacíficos, com a Polónia à cabeça, a maior vítima, mas também a Finlândia, que
desde esse ataque perdeu cerca de 10% do seu território, e os Estados Bálticos:
Estónia, Letónia e Lituânia, bem como a Bielorrússia e a Roménia. A Alemanha
nazi e a U.R.S.S. culparam então as democracias ocidentais, França e
Inglaterra, pelo desencadear da guerra, numa prova monstruosa de cinismo e
hipocrisia.
Uma das grandes vantagens deste acordo foi
desmascarar completamente o imperialismo
comunista da U.R.S.S. – quanto ao nazi, era imperialista por natureza, bastava
a invasão da U.R.S.S. e o Lebensraum (espaço vital) subjacentes para o evidenciar, pelo que não
precisava de ser desmascarado – ainda hoje se sentem as consequências; em 2019, o Parlamento Europeu equiparou o
comunismo ao nazismo por uma maioria esmagadora de deputados, nestes termos: “a
União Europeia colocou o comunismo e o nazismo em pé de igualdade, depois de
aprovar uma resolução condenando ambos os regimes por terem cometido genocídios
e deportações e terem sido a causa da perda de vidas humanas e liberdade em uma
escala nunca vista até agora na história da humanidade”. A resolução: Importance
of European remembrance for the future os Europe contou com 535 votos a
favor, 66 contra e 52 abstenções.
Elucidativo. Outra coisa em comum a estas ideologias é o socialismo que
as enformava, convém não esquecer que a Rússia era a pátria do socialismo, e a Alemanha
de Hitler era também socialista: Nacional-Socialista. Na realidade tratava-se
de países com actuações verdadeiramente fascistas, por muito que doa ainda hoje
aos comunistas!
Acabo com uma citação que me parece muito
oportuna:
“O Pacto Germano-Soviético foi a mais devastadora
escolha da vida de Estaline e, porventura, da história da Europa do século XX.
Assinar, como Estaline fez, este pacto com os nazis foi uma escolha fatídica
para a URSS e para o mundo. Não só escancarou as portas de uma guerra à escala
mundial como dilacerou a URSS, que sofreria […] 27 milhões de mortos. O pacto
foi um desastre moral, militar e humano”.
FONSECA, 2025, p.7
Compreende-se, também à luz deste Pacto, o motivo
pelo qual a Polónia, os Estados Bálticos e mais alguns Países do Leste da
Europa, incluíndo a Ucrânia queiram entrar na NATO, (a Suécia, tradicionalmente
neutra, e a Finlândia já entraram) apesar de Trump e das suas inconsequências e
incoerências dentro da Aliança. Trump não durará sempre, “hopefully”…
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