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PENSAMENTO(S) SIMPLES DO DIA – MDCCCLXXXVIII                                          13/03/2024                                       

ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O RESULTADO DAS ÚLTIMAS ELEIÇÕES:

“Quanto maior o poder, mais perigoso é o abuso”, Edmund Burke.

A ESQUERDA AFASTADA DO PODER…

Esta é a consequência, de longe, mais importante destas eleições. A viragem do eleitorado à direita é inegável, incontestável e irreversível nos tempos mais próximos. Com efeito, os partidos à direita – refiro-me a um bloco de direita por oposição a um bloco de esquerda (sendo certo que ainda faltam os resultados da emigração; 4 mandatos) – detêm neste momento 135 deputados; AD + Chega + IL, quando a maioria são 116, e para a esquerda, perder o poder tem um custo incalculável.

Para o PS os danos são profundos: perdeu uma maioria absoluta, perdeu 40 deputados e caiu de 41,68% dos votos para 28,66%, percentualmente menos 13,02%. Acresce que em 2022 obteve 2.301.887 votos, contra 1.757.879 votos agora, ou seja, uma quebra de 544.008 votos. Nestas circunstâncias, mesmo tendo ficado próximo da AD, é indiscutivelmente uma derrota, sobretudo se considerarmos que vinha de uma maioria absoluta que foi completamente desperdiçada e malbaratada. A tudo isto há que acrescentar os milhares de “boys” e “girls” que agora perdem os seus “jobs” e que vão ter que se fazer à vida… e a perda de lugares e de influência no aparelho do Estado. Perde também, pelo menos nos tempos mais próximos, a posição de partido charneira na política portuguesa. Surpreendentemente, podia e deveria ter sido pior.

A AD, embora a expectativa fosse de uma vitória folgada – o que não admiraria dados os erros, incompetência e por vezes, amadorismo mesmo como no dossier TAP, e demissões clamorosas do anterior Governo – tem um resultado muito razoável se considerarmos que à sua direita há um partido omnívoro, voraz que não existia anteriormente com expressão, o Chega. Ora este partido congrega tudo o é que contestação e descontentamento com a situação política, como com a inflação, o caos na saúde, a falta de casas, a crise nas Forças de Segurança, a recuperação do tempo dos professores, etc., etc., e nesse sentido substituiu o PCP como principal partido de contestação até no Alentejo – Beja era o último reduto a eleger um deputado do PCP que nem isso conseguiu agora – completamente perdido pelo PCP…  Portanto, ter tido, mesmo assim 29,5% dos sufrágios que lhe dão acesso ao poder, é razoavelmente bom visto nesta perspectiva. Sem o Chega, a AD ganharia largamente, como sempre ganhou no passado quando foi chamada a substituir o PS que, invariavelmente, deixava o País ou no pântano, como com Guterres em 2001, ou na bancarrota, como com Sócrates em 2011.

A IL mantém o mesmo número de deputados e pode ser um parceiro privilegiado da AD, os seus 8 deputados poderão vir a ser muito importantes em situações de crise. Não deixarão de fazer exigências fortes quando o seu voto for imprescindível para a aprovação de leis na A.R., ou para a manutenção do Governo em funções, e o seu programa enquanto partido fortemente liberal, não se pode classificar propriamente de moderado. 

Um dos parceiros para a formação de uma nova Geringonça, o PCP, não está com os pés para a cova, parte dele é já cadáver por enterrar, se considerarmos o seu poder e representatividade no passado: nas Constituintes de 1975, o PCP aliado ao MDP, o PEV satélite daquela altura, obteve 948.253 votos e 35 deputados – numa Assembleia Constituinte com 250 deputados – versus 202.235 sufrágios, 4 deputados e 3,3% dos sufrágios, temos a dimensão da tragédia; uma perda de 746.018 sufrágios e de 31 deputados. E o pior de tudo, é que a retórica política mantem-se a mesma, como se estivéssemos em 1975 e como se não tivesse havido uma débâcle mundial do comunismo e o colapso da U.R.R.S., também pela queda deste parceiro o PS e Pedro Nuno Santos saem muito fragilizados, bem com o conjunto das forças de esquerda. 

O BE aguenta-se muito razoavelmente pois não tem perda de mandatos mas, se considerarmos que foi parceiro privilegiado da Geringonça, agora, com os seus 5 deputados, somados aos 4 deputados do PCP, mais o PS, com 77 deputados, chegamos à conclusão de que: 77 + 5 + 4, é igual a 86 deputados, longíssimo dos 116 de que uma nova Geringonça precisava, ou seja, a 30 deputados para a exercitar outra vez!  Sofre uma derrota clara se considerarmos toda a sua estratégia e retórica a destilar ódio e o objectivo declarado de conter a direita e sobretudo a extrema-direita, o resultado é um falhanço grave, pois não consegue nem uma coisa nem outra. Pedro Nuno Santos com o seu voluntarismo para formar uma nova Geringonça, deve ter chegado à conclusão tardiamente de que a História não se repete e que foi um erro ter-se ligado incondicionalmente a este partido ab initio

O Chega tem um crescimento espectacular com cerca de 1,1 milhões de votos – notável em qualquer sítio do mundo considerando que tem 5 anos – e é só uma questão de tempo até influenciar directamente o poder ou fazer mesmo parte dele. O seu crescimento vai continuar e quanto mais o segregarem e abominarem, mais ele crescerá como cresceu até agora com a mesma receita… todas as suas fragilidades e inconsequências programáticas – como dar tudo a todos como se não houvesse limitações orçamentais, ou ir buscar o dinheiro à corrupção e à economia paralela, como se fosse fácil – só se verão quando tiver responsabilidades governativas e isso, para já, demain c’est pas la veille, como dizem os franceses, mas após um novo acto eleitoral, será inevitável.

À esquerda é digno de nota o LIVRE que quadruplica os seus deputados, o que engrossará as fileiras da esquerda embora Rui Tavares cultive um não-sectarismo que lhe rendeu bons frutos, o BE pode sentir-se ameaçado a prazo. O PAN é mais do mesmo e ainda não será desta que verá o fim das touradas ser proibido por lei…

A política portuguesa de repente ganhou uma dinâmica espectacular e insuspeitada ainda em Outubro, nada como dar a palavra ao povo em caso de corrupção manifesta no seio do poder…

 

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