Avançar para o conteúdo principal

 

PENSAMENTO(S) SIMPLES DO DIA – MDXCIV                                                           30/07/2021

AINDA A RESPEITO DA MORTE DE OTELO SARAIVA DE CARVALHO… 

«Numa nota do primeiro-ministro, “o Governo lamenta o falecimento do coronel Otelo Saraiva de Carvalho e endereça as mais sentidas condolências à sua família, assim como à Associação 25 de Abril”. “A capacidade estratégica e operacional de Otelo Saraiva de Carvalho e a sua dedicação e generosidade foram decisivas para o sucesso, sem derramamento de sangue, da Revolução dos Cravos”, elogiou». “SAPO”, 27/07/2021 

“Um crime não justifica outro” – Aforismo popular. 

Quando li esta nota do Gabinete do Primeiro-Ministro, pensei no seguinte:

É verdade ou não que Otelo criou e era o líder das FP -25 de Abril, mesmo se disfarçado, acobertado e escondido por detrás do Projecto Global? É verdade ou não que as FP-25 de Abril cometeram dezenas (centenas?) de crimes ao longo da sua existência? É verdade ou não que como resultado desses crimes houve 18 vítimas mortais, incluíndo um bebé? É verdade ou não que Otelo não podia ignorar os actos que os seus homens, os seus operacionais e companheiros de organização(ões) perpetravam? É verdade ou não que as FP-25 de Abril faziam parte do Projecto Global, ambas organizações criadas por Otelo? 

As respostas são óbviamente todas pela positiva: sim, Otelo criou as FP-25Abril e o Projecto Global; sim, Otelo era o seu líder e autor moral; sim, as FP-25 de Abril cometeram dezenas de crimes; sim, houve 18 vítimas mortais; sim, Otelo tinha forçosamente que saber o que a sua organização terrorista andava a fazer, o relato dos seus crimes até vinha nos jornais… Portanto, ninguém pode alegar que ele é inocente dos crimes que foram cometidos! Otelo era o líder de uma organização criminosa que cometeu inúmeros crimes num regime democrático e atentou fortemente contra o Estado de Direito e as suas Instituições, em vez de ajudar a consolidá-los, como era sua obrigação pelo seu passado de militar em que serviu o Estado e a Nação, e, se não fosse por mais nada, enquanto simples cidadão que quer viver em democracia, tão clamada e tão vilipendiada e espezinhada pelas usas acções! Onde está o herói “romântico” deste filme de terror? E por favor, não me venham com outros exemplos, como o de Spínola que atentou contra o Estado, porque, como diz o povo, e muito bem: um crime não desculpa ou justifica outro! Não se branqueiam crimes com outros crimes! 

Sendo assim, tenho muita dificuldade em perceber a nota de António Costa, Primeiro-Ministro deste País, por a mesma se limitar a enaltecer as “virtudes” de Otelo, qual Dr. Jekill, e não haver a mais leve menção à parte má, horrível, a Mr. Hyde! 

No fundo, acabo por compreender, a esquerda é toda ela um monte de virtudes e quem não pensa como ela é, invariavelmente, apodado de fascista! Nunca vi argumento mais primário, mais básico, mais delirante e afastado da realidade; há muito bom democrata que não pensa como a esquerda, muito menos como a esquerda radical! Li alguns textos dessa esquerda a propósito da morte de Otelo e pareceu-me recuar aos tempos do PREC, um verdadeiro anacronismo de ideias e de expressões retiradas do armário, bafientas e cheias de pó! Votadas ao caixote do lixo da História noutras latitudes! Completamente fora do contexto em 2021 e, sobretudo, depois da implosão da U.R.S.S. e do colapso do comunismo e do Marxismo/Leninismo, sobretudo de este último, de alguma forma a teoria que inspirou e imbuiu Otelo e companheiros! 

Sou inequivocamente pelo 25 de Abril, um dos dias mais felizes da minha vida e que correspondeu aos fortes anseios pela liberdade e pela democracia de todo o democrata genuíno, e pela democracia que ele nos permitiu – devemo-lo em parte a Otelo, reconheço-o sem nenhum problema – não obstante, sou completamente contra as tentativas de branquear Otelo e os seus crimes e de radicalizar a nossa democracia, apesar de todos os seus defeitos! 

Li algures que o regime caiu ao primeiro pequeno abanão, mas teria caído também se lhe soprassem – a verdade é que não houve nenhuma unidade militar que o defendesse e que daí tivesse havido confronto e tivessem resultado vítimas – tal a sua debilidade e o seu estado comatoso, ou seja, Otelo foi o operacional, mas se não tivesse sido ele, qualquer um no seu lugar o teria também conseguido fazer com sucesso e sem dificuldade… dá que pensar porque nunca tinha lido ou ouvido este argumento sobre a total debilidade do Estado Novo… 

Acabo com a seguinte citação que me parece bem oportuna: “Nenhum culpado pode ser absolvido pelo tribunal da própria consciência”. Décimo Júnio Juvenal. 

E sendo assim, não sei se algum dia Otelo terá a paz do descanso eterno, apesar da imensa glória com que alguns o querem revestir...

 

 

 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

  MISCELÂNEA DE IDEIAS – XXIX                                                                                       14/04/2025                                                                           HOLODOMOR E RUSSIFICAÇÃO: DOIS EVENTOS QUE EXPLICAM EM GRANDE PARTE A UCRÂNIA ACTUAL… “A história é testemunha do passado, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida, anunciadora dos tempos antigos”, Cícero. E é incontornável para se perceber melhor o presente e o passado recente… Um breve resumo do que foi o H...
  MISCELÂNEA DE IDEIAS – XXX                                                                                         15/05/2025                 “A escolha do Instituto Técnico de Alimentação Humana (ITAU), um dos clientes da antiga empresa de Luís Montenegro, para fornecer refeições à Santa Casa da Misericórdia foi decidida pela anterior provedoria liderada por Ana Jorge, indicada pelo Governo de Costa ”, “ECO”, 11/05/2025                                                  ...
  REFLEXÕES SOBRE A ACTUALIDADE – CCCLXXIX                                               29.09.2025                                                 “BYE-BYE”, GOVERNO SOMBRA DE ANDRÉ VENTURA… “O fracasso não tem amigos”, John Kennedy. Não faz parte da tradição política portuguesa a existência de Governos-sombra, mas é pena porque a sua existência é salutar e benéfica para a democracia. A cada momento, um dado Governo é sujeito a crítica e escrutínio nas diferentes áreas da Governação e, para além disso, à solução alternativa que o titular da pasta em questão faria na circunstância. Por estas razões, só se poderia louvar a criação e a instituição pelo Chega dessa iniciativa. Numa análise, para já muito sumária...