PENSAMENTO(S) SIMPLES DO DIA – MDXLVIII
«O
estalinismo foi uma catástrofe do século XX e, por isso, ao longo de toda a
minha vida sempre afirmei que só pode haver uma esquerda de futuro se for
antiestalinista. Ora, a denúncia do estalinismo tem de ser levada a sério, na
base de factos e não de fantasias, como é o exemplo da entaramelada explicação
de Beuvink sobre os comunistas "comerem crianças”.».
Francisco Louçã, Jornal “Expresso”, 6/04/2021.
É engraçado, nunca ouvi Francisco Louçã denunciar o Estalinismo!
Os comunistas, mormente os comunistas do PCP –
e digo isto porque há outros partidos comunistas em Portugal, como o Bloco de
Esquerda e o PEV, este constituído por dois únicos políticos do partido
comunista português travestidos de ecologistas – consideram o Estalinismo uma
catástrofe do século XX? Criticam-no, denunciam-no, execram-no, repudiam-no,
ostracizam-no? Não, de todo, antes pelo contrário, enaltecem-no, consideram Estaline e sempre
consideraram, um político enorme, gigante – por algum motivo lhe chamavam o Pai
dos Povos – inatacável, que fez avançar a U.R.S.S. e consolidou o comunismo no
mundo!
Francisco Louçã pode dizer o que quiser, até
pode dizer que é conselheiro espiritual do Papa Francisco, por exemplo, mas não
pode fazer de nós parvos. Na realidade, o que separava Estaline de Trotsky era
um pormenor, um mero hiato no tempo: Trotsky queria a Revolução Permanente
desde logo, Estaline queria consolidar o socialismo na U.R.S.S. primeiro, mas
conseguido isto, minou e subverteu em todo o lado para conseguir a Revolução,
permanente ou não, em todos os países em que o pode fazer. Os países da Europa
de Leste que submeteu e esmagou a parir de 1945, confirmam-no cabalmente. O
objectivo último de ambos: espalhar e implantar o comunismo por todo o lado! Urbi
et orbi…
Ninguém pode dizer que Trotsky teria cometido
menos crimes do que Estaline se tivesse ocupado o seu lugar. Estavam bem um
para o outro, pelo que Louçã, um conhecido e reputado Trotskista, ao dizer que o estalinismo foi
uma catástrofe do século XX, não passa de mera táctica política para proteger e
enaltecer o Trotskismo, e para se sair bem da polémica em que se viu envolvido
a propósito das suas infelizes afirmações sobre o Holodomor, que a intervenção
da deputada Aline Beuvink na Assembleia Municipal de Lisboa suscitou e em que
esta denunciou corajosamente a catástrofe da fome induzida e provocada
deliberadamente por Estaline na Ucrânia, que provocou milhões de vítimas que pereceram
miserável e ignobilmente à fome.
Em termos práticos, nos últimos anos, quantas
vezes vimos os Trotskistas do BE votar ao lado dos Estalinistas do PCP na
Assembleia da República? Sempre ou quase sempre! As vezes em que isso não
aconteceu são desprezíveis. Substancialmente, não há diferenças entre eles em
2021. Francisco Louçã vem agora atirar-nos areia aos olhos? Trotsky foi
cúmplice, fez parte da clique que governou a U.R.S.S. até Estaline o escorraçar
do poder, e ajudou a preparar o terreno para Estaline actuar da maneira que
actuou, é o que acontece quando se constrói um regime totalitário. Não era o
comunismo que os diferenciava ou separava, era o método para o implementar e implantar…
Pretender que o Estalinismo foi mau e que o
Trotskismo é bom (teria sido bom se tivesse sido poder), é como perguntar a um
condenado à morte se prefere, como última graça que lhe é concedida na última
refeição, comer arroz com batatas ou batatas com arroz?

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