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PENSAMENTO(S) SIMPLES DO DIA – MCDXLIX

O PASSADO DE UMA ILUSÃO – ENSAIO SOBRE A IDEIA COMUNISTA NO SÉCULO XX

(Título da obra de François Furet)

«Calcula-se que, em apenas quatro anos de existência, de 1976 a 1979, o regime comunista liderado por Pol Pot dizimou um quarto da população do Camboja, num total de, pelo menos, 1,7 milhões de seres humanos». António Araújo, Jornal “Expresso”, 12/09/2020.

Sempre que leio uma notícia deste género, inevitavelmente, reflicto sobre o comunismo e a ilusão que ele encerra, ou antes, encerrou e que François Furet tão bem sintetizou no título da obra que também cito em supra.

No Camboja usavam, abusavam de um lema: “se te eliminar, não perco nada; se te poupar, não ganho nada”, este arrepiante princípio ajuda a explicar a chacina perpetrada.

O que mete mais impressão é que este foi um padrão “normal” e “normalizado” em todos os regimes comunistas, quando e onde foram poder. A única coisa que variou foram os valores da chacina e dos crimes contra a humanidade, de dezenas de milhões na China e na antiga U.R.S.S., a umas centenas de milhar em Cuba.

É por isso que fico perplexo quando vejo as pessoas hoje ignorarem e desculpabilizarem estes factos manifestamente comprovados – para além de toda a legítima suspeita numa dada fase da história, não agora – e conhecidos, de todas estas atrocidades cometidas em nome de uma ideologia que pretendia criar um homem novo, continuarem a defender o comunismo. Como é possível?

Mesmo que, para além de tudo o que é razoável, possam pensar que a ideologia está certa, é supostamente científica e propõe-se libertar o homem de todas as formas de escravidão e sujeição, a verdade é que onde quer que tenha sido aplicada, produziu exactamente o contrário e invariavelmente os mesmos efeitos, ditaduras brutais e milhões de vítimas inocentes que põem em causa, legitima e revoltadamente, a obsessão pela forma acéfala com que hoje ainda persistem na crença e defesa de uma doutrina rotunda, sistemática e inapelavelmente falhada, fracassada.

Onde está a gravitas destas pessoas e o seu apego à verdade e à justiça – entre as quais tenho muitos amigos intelectualmente sérios – ao tomarem conhecimento e ao assistirem ao revelar destes números escandalosos – ultrajantes e vexatórios para a nossa condição humana que pressupõe, no mínimo, respeito pelo nosso semelhante e pela sua dignidade de ser humano – e impossíveis de escamotear ou de branquear?

O que pensa o operariado que vota no PCP? E a classe média que também o apoia? E os raros intelectuais que ainda o apoiam? Sim, é muita gente! Terão a menor ideia do que representaram estes regimes e do custo em vidas humanas, terror, repressão e brutalidade que lhes está associado? Intelectuais à parte, tenho seriíssimas dúvidas.

Continuo à espera que, razoavelmente, me expliquem a sua persistência, teimosia e cegueira no seu apoio a esta ideologia, se é que algum dia o conseguirão fazer. Acresce que é difícil defender o genocídio para toda e qualquer pessoa decente e torna-se insustentável, sobretudo, para os que se proclamam do anti-fascismo. O que a história nos ensinou foi que tudo o que se passou nestes países, para além dos genocídios, teve laivos fortíssimos de fascismo ou o fascismo não é o desrespeito absoluto pelo homem, pelos seus valores e pelas suas crenças?

Onde está a diferença?


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