PENSAMENTO(S) SIMPLES DO DIA - MCDXXX
”É que o presidente da ARS mandou para lá os médicos fazerem o que
lhes competia. E os gajos, cobardes, não fizeram", pode ouvir-se
António Costa a dizer aos jornalistas do semanário, em 'off', sobre o caso do
lar de Reguengos de Monsaraz”. “SAPO – 24”, 23/08/2020.
Este parágrafo tem que ser analisado sobre várias perspectivas:
1.
Uma conversa em “off” é como um conversa privada, sigilosa por
definição ou não seria em ”off”, seria pública, logo, não é para divulgar. Mas
ela aí está e não é proibido analisá-la publicamente. Não é a primeira vez que
os políticos, em Portugal e no estrangeiro, são apanhados em conversas em
“off”. Lembro-me que Trump foi vítima duma gravação desse teor em que dizia que
“adorava apalpá-las lá naquele sítio”… ou algo do género. É curioso, não me
lembro de ouvir alguém em Portugal manifestar-se contra essa quebra de sigilo e
essa violação da privacidade das conversas de Trump… seguramente que não ouvi o
PS protestar, muito menos, António Costa…
2.
Os médicos alertaram a Administração Regional de Saúde – uma
agência do Estado – para o facto de o lar de Reguengos não ter as mínimas
condições para ali exercerem o seu métier com competência e dignidade
mas, mesmo assim, os médicos de família foram sempre lá prestar assistência aos
idosos. Está no relatório da Ordem dos Médicos. O Governo foi avisado por esta
via e não pode agora acusar os médicos de cobardia.
3.
Quando se ouve, vê e lê a forma como o Primeiro-Ministro de
Portugal se manifesta sobre uma classe, neste caso, a médica – então a final da
Liga dos Campeões em Lisboa não era um prémio para os profissionais de saúde,
médicos incluídos? – aferimos imediatamente o baixíssimo nível intelectual da
personagem e as gritantes lacunas na sua educação básica! Um Primeiro-Ministro
não se pode referir assim, nestes termos indecorosos – mesmo que tivesse razão e não tem – a nenhuma
classe, muito menos à classe médica que tem estado na linha da frente e
muitíssimo exposta, no combate à Covid-19!
4.
Foi o jornal “Expresso” e um seu cameraman que gravou a
entrevista a António Costa e foi o jornal “Expresso” que divulgou o vídeo – nem
podia ter sido mais ninguém – apesar de agora dizer o contrário. Francamente,
leio o “Expresso” desde 1973 e lamento que, voluntária ou involuntáriamente, o
“Expresso” não assuma a sua responsabilidade neste episódio. Ou será que houve
alguém que divulgou o vídeo (e torpedeou?) à socapa, contra a vontade dos
jornalistas e da direcção do jornal? Mas
se foi o caso, o “Expresso” é responsável na mesma. Que tristeza, que desilusão
para um jornal de referência e de eleição.
5.
Não percebo, mas não admira, sou um zero em informática e em novas
tecnologias, alguém que me explique, por favor, como é possível que isto
aconteça, cito a nota da direcção do “Expresso”:
“Uma gravação amadora de um ecrã de computador, que
reproduz uma recolha de imagens de uma conversa off the record, privada, do
primeiro-ministro com jornalistas do Expresso […]»
Ou seja, o “Expresso” não tem culpa nenhuma, é vítima…
6.
É óbvio que os portugueses nunca escolheram maioritariamente
Costa para ser Primeiro-Ministro – fizeram muito bem! – e nisso, não se
enganaram…
Aos poucos, classe a classe, grupo a grupo, segmento da sociedade
a segmento; primeiro, os senhorios, indecentemente hostilizados e forçados a
substituírem-se ao Estado em acção social; depois, os professores e a
treta/chantagem da demissão; mais tarde, os enfermeiros e a sua Ordem, no
mínimo, vilipendiados; a seguir, os jornalistas que “vivem sempre da desgraça
alheia”; agora, os médicos, “gajos cobardes”. Costa vai alienando apoios e os
correlativos votos, nada que me admire, por onde quer que tenha passado, Costa
nunca fez nada de jeito. Não seria num cargo com esta importância e exigência
que daria boa prova da sua valia.
Também não perdemos nada, antes pelo contrário, no dia em que corrermos Costa e os socialistas do poder – usando o voto, bem entendido – poderemos olhar o futuro com mais esperança, tranquilidade e ao abrigo de sermos sistemáticamente aldrabados, amesquinhados e tratados como tansos!

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