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PENSAMENTO(S) SIMPLES DO DIA – MCCCLXI

«Foi com raras palavras duras na defesa das comemorações do 25 de Abril na “Casa da Democracia” que Marcelo Rebelo de Sousa fez o seu último discurso deste primeiro mandato como Presidente da República. Atento à polémica das últimas semanas em torno daquilo a que muitos chamaram “uma festa de políticos”, o chefe de Estado fez questão de se colocar de um dos lados — o do centro-esquerda — contra a direita mais radical, ainda que com o risco de alienar uma parte do seu eleitorado». Jornal “Público”, 26/02/2020.

“Verdadeiramente fiel é o teu cão, em quem podes confiar até ao último momento, no político que escolheste e em quem votaste, apenas até à primeira ocasião”. Rui Graça Moura.

Não, Marcelo não se colocou contra a direita mais radical, Marcelo colocou-se contra o seu eleitorado, é muito diferente…

Toda esta polémica teria sido desnecessária se a Assembleia da República e quem manda nela – depreende-se Ferro Rodrigues, política e diplomaticamente uma nódoa criticado até pelos seus pares – tivesse tido o bom senso de organizar uma cerimónia contida, parca, restrita no número de deputados e de convidados e que não conflituasse com o Estado de Emergência a que todos estamos submetidos e com facetas inéditas e muito duras do mesmo, como a presença mínima de familiares nos funerais e ausência de qualquer ritual, religioso ou não.

O modelo inicial estava completamente errado e justificações absurdas – verdadeiros fretes políticos – que deram origem a grande chacota, como as de Graça Freitas, Directora Geral da Saúde: "é um edifício grande e que permite que as pessoas estejam à distância […]”, não ajudaram e só incendiaram ainda mais os ânimos.

Contudo, não é esta reprimenda de Marcelo o mais importante, o problema principal está na postura política de Marcelo Rebelo de Sousa que assenta num equívoco monumental, Marcelo não foi eleito com os votos do PS – alguma gente do PS votou nele, com certeza – muito menos do BE, ainda menos do PCP e do PEV, não, Marcelo não foi eleito pela esquerda, essa tinha outros candidatos, sendo os principais: Sampaio da Nóvoa, Marisa Matias, Maria de Belém e o candidato comunista Edgar Silva que obteve uns míseros 3,95% dos votos, o que só veio confirmar o declínio irreversível do PCP. Marcelo foi eleito essencialmente, pelo centro, pelo centro-direita, pela direita e, por ventura, por alguma direita radical que também existe mas que quase não tinha expressão na altura.

E aqui é que reside o problema, Marcelo anda há mais de quatro anos com o Governo de Costa ao colo e sistemáticamente contra o seu eleitorado e contra aquilo que o seu eleitorado espera que ele faça, querem um bom exemplo? Toda a gente esperava que Marcelo agisse em prol de manter no cargo de Procuradora Geral da República, Joana Marques Vidal, Marcelo não fez nada disso, alinhou com Costa na sua substituição quando a sua permanência era a garantia de que muitos políticos a contas com a justiça continuariam a ser (muitíssimo) incomodados, como Sócrates, por exemplo…

Marcelo – que é e deve ser Presidente de todos os portugueses - há mais de quatro anos que está em dessintonia completa com o seu eleitorado natural e de onde provém; Marcelo sempre pertenceu ao PSD e ocupou cargos de enorme relevância política e para os quais foi indicado pelo PSD; como deputado, Secretário de Estado, Ministro, deputado ao Parlamento Europeu, Conselheiro de Estado, e chegou mesmo a ser seu Presidente pelo que não devia hostilizar o seu eleitorado natural porque isso é muito perigoso para a sua recandidatura e para a fidelidade, lisura e ética na política que deveria obrigar os detentores de cargos políticos.
Eu, por exemplo, que votei em Marcelo, fi-lo uma única vez, Marcelo vai ser reeleito com, desta vez, uma significativa participação do eleitorado da esquerda, quem sabe se não contará até com votos da extrema-esquerda?

E sendo assim, coerente e fielmente, não, obrigado!

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