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PENSAMENTO(S) SIMPLES DO DIA – MCCCXXIII

«Qualquer lugar onde alguém está contra a sua vontade é, para este alguém, uma prisão». Epicteto, 50 d.C. – 135 d.C., filósofo grego.

A respeito do confinamento a que todos estamos sujeitos e sobre esta clausura forçada, reflecti um pouco sobre as prisões e, sobretudo, sobre a solitária.
Há na maioria das prisões uma ala a que se chama a solitária e que consiste em enclausurar um preso numa cela em solidão total, sem nenhum contacto com qualquer outro preso ou semelhante. Ao que sei, a comida é introduzida na cela por um postigo sem que o preso necessáriamente veja o guarda que lha providencia.
Posto isto, pergunto-me como é possível passar dias, meses, anos na solitária e manter a sanidade mental e a integridade intelectual?

Estes dias de clausura no conforto das nossas casas e onde não nos falta nada de essencial:  genericamente companhia, mesmo que só do cônjuge ou companheiro(a), a parafernália de facilidades à nossa disposição que o mundo moderno nos propicia: computador e internet, uma janela para o mundo; música, seja através do iTunes ou do Spotify; televisão – dezenas ou centenas de canais, Sport tv; Netflix; HBO e mais não sei quantos canais temáticos incluindo os chamados canais para Adultos; livros; semanários e outros jornais (alguns com entrega ao domicílio) e revistas; géneros alimentares que qualquer supermercado nos trará ao domicílio,  a Uber Eats que entrega refeições já confeccionadas no sistema de “take away”; comunicações, algumas completamente gratuitas e com imagem, como a providenciada pela aplicação WhatsApp ou o Face Time, passando pelo entretenimento e facilidade de comunicação com os amigos que o Facebook propicia ou pelos grupos fechados no WhatsApp.

Apesar disto tudo, receio que a partir de uma certa altura se o Estado de Emergência perdurar com a sua obrigação de confinamento de todos e de cada um de nós, é muito provável que nos venhamos a sentir afectados psicológicamente.

É por isso que fico estupefacto quando leio que há milhares de prisioneiros a cumprir pena em regime de solitária – principalmente nos EUA, mas não só – pelo que não deixo de considerar a minha “prisão” uma verdadeira gaiola dourada…

Álvaro Cunhal – por quem não sentia nenhuma simpatia pessoal nem nenhuma empatia ou afinidade política – esteve onze anos encarcerado e passou oito em total isolamento, e nesse sentido, exclusivamente, tiro-lhe o meu chapéu. É preciso um tipo ser muito forte física e psicológicamente para resistir a um processo destes, é possível, é muito provável que o seu quase ascetismo bem como o seu enorme radicalismo provenham também desta experiência.

Seja como for, eu que até gosto muito de ler, digo: viva a liberdade, viva o sol, viva a praia e a montanha e o campo, anseio pelas viagens, pelo movimento e pelo contacto e convívio sociais, tudo isto próprio do homem que além de ser um animal gregário, é também e por natureza um ser eminentemente social! Não sou um “bicho do buraco”…


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